Governo Lula enfrenta tensão diplomática com Argentina e Paraguai em meio a atritos com aliados de Trump

Lula na convenção do PSB, em Brasília (Reprodução)

Relações com os dois países vizinhos se desgastaram após declarações de líderes dos dois lados; cenário ocorre enquanto Brasil também enfrenta medidas adotadas pelos Estados Unidos

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vive uma semana de tensão nas relações internacionais, marcada por desgastes diplomáticos com Argentina e Paraguai, dois países governados por líderes alinhados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os episódios ocorrem em um momento de pressão adicional sobre o Brasil, após medidas adotadas pelo governo norte-americano.

O caso mais recente envolve o Paraguai. Nesta sexta-feira (31), o governo paraguaio deve entregar uma nota oficial ao embaixador do Brasil em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, manifestando descontentamento com declarações feitas por Lula sobre a Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança.

Declaração de Lula motivou reação do Paraguai

Durante um evento realizado no último fim de semana, em São Paulo, Lula defendeu a necessidade de investimentos na área de defesa e citou o conflito do século XIX como exemplo. Ao lembrar a invasão paraguaia ao território brasileiro em 1864, o presidente destacou que, apesar do histórico pacífico do Brasil, o país já enfrentou conflitos armados na região.

As declarações, no entanto, provocaram reação do governo paraguaio, que acusou o presidente brasileiro de apresentar uma interpretação incompleta dos acontecimentos históricos.

Segundo a visão defendida pelo Paraguai, a guerra teve origem na intervenção do Brasil no Uruguai, episódio que resultou na queda do então presidente uruguaio Atanasio Cruz Aguirre, aliado do governo paraguaio.

O professor de História da Faculdade Mackenzie e especialista em América Latina, Victor Missiato, explica que parte da historiografia paraguaia interpreta o conflito como consequência do imperialismo britânico, com participação ativa de Brasil e Argentina contra o Paraguai.

Além de convocar o embaixador brasileiro para prestar esclarecimentos — medida considerada, no meio diplomático, um sinal de forte insatisfação entre países —, o Congresso do Paraguai aprovou, por unanimidade, uma declaração criticando as falas de Lula. No documento, parlamentares afirmam que o presidente brasileiro minimizou o sofrimento enfrentado pelo povo paraguaio durante a guerra.

Relação com a Argentina também atravessa momento delicado

Paralelamente ao episódio envolvendo o Paraguai, o governo brasileiro enfrenta um novo desgaste diplomático com a Argentina.

A tensão aumentou após o presidente argentino, Javier Milei, participar da convenção do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Durante o evento, Milei declarou apoio ao parlamentar e fez críticas ao presidente Lula, chamando-o de “presidiário” e afirmando que o Brasil estaria sendo conduzido “ao caminho da dívida”.

Em resposta, o governo brasileiro convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre as declarações do presidente argentino.

Como parte da reação diplomática, o embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, foi chamado temporariamente de volta ao país. Durante sua permanência em Brasília, o diplomata se reuniu com o presidente Lula e com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para avaliar o episódio e discutir os próximos passos das relações entre os dois países.

De acordo com fontes do Itamaraty, a definição sobre o retorno de Bitelli à embaixada em Buenos Aires dependerá da evolução das negociações e dos desdobramentos diplomáticos nos próximos dias.

Contexto internacional amplia preocupação do governo

Os atritos com Argentina e Paraguai acontecem em um cenário de maior pressão internacional sobre o Brasil.

Os dois países fazem parte do chamado Escudo das Américas, iniciativa apoiada pelos Estados Unidos e composta majoritariamente por governos alinhados à política externa de Donald Trump. O grupo foi criado com o objetivo de fortalecer o combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado na América Latina, sem a participação brasileira.

Ao mesmo tempo, o governo norte-americano anunciou novas tarifas sobre produtos brasileiros e prorrogou por mais um ano a classificação de estado de emergência nacional relacionada ao Brasil.

Nos bastidores do governo federal, existe a preocupação de que a gestão de Donald Trump possa ampliar sua atuação política na região e tentar influenciar o cenário das eleições presidenciais brasileiras previstas para outubro.

Da Redação 98 FM News/Com Metrópoles

OUÇA AO VIVO
publicação legal

Agora disponibilizamos neste espaço, PUBLICAÇÕES LEGAIS, para que órgãos mucipais, estaduais, federais e privados publique seus documentos.