De uma missa em plena mata, em 1937, ao título de Basílica Menor concedido pelo papa Francisco — conheça a trajetória do maior cartão-postal da cidade
Antes de existir qualquer parede, telhado ou torre, o que havia ali era só mata fechada. Foi em meio a essa clareira, na atual Praça Rui Barbosa, que um grupo de pioneiros se ajoelhou pela primeira vez, em 8 de dezembro de 1937, diante de um altar improvisado com madeira e palmeiras. Dali nasceria, décadas depois, um dos templos mais belos do Brasil — e a maior prova de fé da história de Apucarana.
Uma capela, um vendaval e um milagre guardado na memória da cidade

Em 1940, os moradores ergueram a primeira capela, com um simples quadro de Nossa Senhora de Lourdes emprestado por um devoto. Um ano depois, o fiel Atílio Carletto doou a primeira imagem da santa — peça que, até hoje, permanece junto ao Crucifixo no presbitério da Catedral.
Mas foi em 10 de novembro de 1941 que a comunidade viveu um dos momentos mais marcantes de sua história: um vendaval varreu a cidade e destruiu completamente a capela. Em meio aos escombros, porém, algo intocado chamou atenção de todos — o altar e, sobre ele, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, intacta. Para os fiéis, aquilo não foi coincidência: foi sinal.
Uma torre que aponta para o céu
A reconstrução começou em 1942, e a devoção só cresceu. Em 1944, o bispo de Jacarezinho, Dom Ernesto de Paula, criou oficialmente a Paróquia de Apucarana, com Nossa Senhora de Lourdes como padroeira. Já na década de 1950, sob a coordenação do padre Armando Círio, começaram as obras da construção que conhecemos hoje — um projeto tão grandioso que levou quase 20 anos para ficar pronto.
O resultado impressiona até hoje: erguida em estilo barroco, a Catedral tem a maior nave interna entre todas as igrejas do Paraná. No topo da torre principal, está uma imagem de Nossa Senhora esculpida pelo artista Ângelo Franco Perez — um detalhe que torna Apucarana única no Brasil, já que nenhuma outra cidade tem uma santa no ponto mais alto de sua torre. Na fachada, esculturas de São Pedro e São Paulo completam a imponência do templo, e os vitrais artesanais, feitos pelo artista Lorenz Johannes Heilmair em 2017, contam passagens bíblicas em vidro colorido.
A cripta que guarda um silêncio sagrado
Poucos visitantes sabem, mas sob o altar existe um dos pontos mais antigos e enigmáticos da construção: uma cripta subterrânea, erguida em pedra, pensada originalmente como mausoléu para padres e autoridades. Com o tempo, o espaço passou a ser reservado exclusivamente para os bispos da Diocese — e foi ali que Dom Domingos Gabriel Wisniewski, que liderou a Diocese entre 1983 e 2005, encontrou seu descanso final, em 2010.
De catedral a Basílica Menor: o reconhecimento do Vaticano

Em 28 de março de 1965, com a criação da Diocese de Apucarana, o templo se tornou oficialmente Catedral, tendo Dom Romeu Alberti como primeiro bispo. Mas o capítulo mais recente e emocionante dessa história aconteceu em 30 de outubro de 2024, quando o papa Francisco concedeu à igreja o título de Basílica Menor — a mais alta honraria que uma igreja fora de Roma pode receber.
O anúncio foi feito de forma simbólica: direto da Praça de São Pedro, no Vaticano, o bispo diocesano Dom Carlos José de Oliveira gravou um vídeo emocionado confirmando a assinatura do papa. “Além de catedral, que já é um título máximo, é também agora basílica. Catedral Basílica de Nossa Senhora de Lourdes”, declarou, visivelmente tocado pelo momento histórico.
Com a conquista, Apucarana passou a ter a quarta Basílica do Paraná — ao lado de Curitiba, Maringá e Paranaguá — e se firmou de vez como destino de peregrinação e fé para católicos de todo o Brasil.
Um símbolo que atravessa gerações
Hoje, quase 90 anos depois daquela primeira missa em meio ao mato, a Catedral Basílica Menor Nossa Senhora de Lourdes é muito mais que um templo: é a alma espiritual de Apucarana. É onde gerações de famílias batizaram seus filhos, celebraram casamentos, choraram perdas e agradeceram vitórias — um marco que carrega, em cada pedra e vitral, a fé de um povo que nunca deixou de acreditar, nem mesmo quando o vento tentou levar tudo embora.

Fotos: Val Oliveira
Da Redação 98 FM News