Ministro do STF André Mendonça diz ser “inevitável” levar o caso ao plenário da Corte; documentos mostram histórico de conversas, encontros e negócios entre o banqueiro e a família do ministro
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça retirou nesta terça-feira (1º) o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens, encontros e negociações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi tomada depois que o jornal Estadão revelou trechos em que Vorcaro pedia a Moraes ajuda para conter as investigações contra o banco, segundo apurou o site Poder360.
Como as mensagens foram descobertas
De acordo com o relatório, Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp para um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo o R7, o contato havia ativado, a partir de 17 de setembro de 2025, o recurso de mensagens que se apagam após 24 horas — mas os rascunhos, os horários de envio e os arquivos em PDF continuaram armazenados na memória interna do aparelho de Vorcaro, o que permitiu à perícia recuperá-los.
Ao menos seis encontros identificados
O documento aponta que o banqueiro e o ministro se encontraram pessoalmente pelo menos seis vezes, incluindo uma reunião de mais de quatro horas na casa de Vorcaro. Um possível sétimo encontro não pôde ser confirmado.
As menções aparecem em mensagens trocadas por Vorcaro com outras pessoas, entre elas a própria filha. Veja as datas registradas pela perícia:
15/11/2024 — Vorcaro conta à filha que está com Alexandre de Moraes.
19/03/2025 — o banqueiro diz estar com o ministro; o encontro dura pelo menos 4h08.
19/04/2025 — Vorcaro avisa que está indo encontrar Alexandre de Moraes perto de sua casa.
29/04/2025 — ele diz estar com “Alexandre” e, em seguida, confirma que se tratava de Alexandre de Moraes.
21/05/2025 — Vorcaro registra estar com “Ciro e Alexandre”.
08/08/2025 — o banqueiro diz estar com “Alexandre” e que teria depois uma reunião com Ciro.
“Dívida de vida” com o ministro
Em uma das mensagens, enviada em novembro de 2025 no mesmo dia em que os dois combinaram um encontro na casa do banqueiro, Vorcaro afirmou manter uma relação de gratidão profunda com Moraes e disse que ele e sua família tinham um débito pessoal com o ministro, segundo reprodução feita pelo g1. O relatório da PF registra que houve resposta do interlocutor, mas não revela o conteúdo dela.
Pedidos de ajuda antes da prisão
Mensagens atribuídas a Vorcaro mostram ainda o banqueiro perguntando a Moraes se seria possível conter ou atrasar ações da Polícia Federal contra ele, e pedindo que o ministro intercedesse junto ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo o Estadão, o banqueiro também questionou, dois dias antes de ser preso, se deveria deixar o país.
Contrato de R$ 131 milhões editado pelo próprio ministro
Um dos pontos mais sensíveis do caso envolve um contrato de prestação de serviços entre o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master, no valor de R$ 131 milhões a serem pagos em 36 parcelas. Metadados do arquivo, extraídos do celular de Vorcaro, mostram que a versão final do documento foi alterada por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, horas depois de o banqueiro devolver o rascunho com anotações à advogada. O escritório confirmou que o ministro teve acesso ao contrato, alegando que seu setor de compliance o consultou, como marido da sócia responsável, sobre eventual impedimento — e que ele nunca julgou nenhum processo envolvendo o Banco Master.
Mendonça quer levar o caso ao plenário
Ao justificar a retirada do sigilo, Mendonça classificou como inevitável submeter as novas informações encontradas no celular de Vorcaro à análise do plenário do STF, determinando que a discussão ocorra em sessão pública e presencial — com data ainda a ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Segundo a CNN, o ministro também avalia pedir abertura de investigação contra Moraes, mas precisaria antes do aval de Fachin para levar o pedido ao colegiado, e estaria calculando os votos favoráveis a essa medida.
O que diz o outro lado
Em episódio anterior do caso, em março, o gabinete de Moraes negou, por meio de nota da Secretaria de Comunicação do STF, ter trocado mensagens com Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro, afirmando que os prints divulgados pela imprensa pertenciam a outros contatos da agenda dele. Até a publicação desta reportagem, Moraes não havia se manifestado sobre os novos elementos tornados públicos nesta terça-feira.
Da Redação 98 FM News