SONHO DA CASA PRÓPRIA: Cadastro segue em Apucarana para quem pegou senha

A cena registrada nesta terça-feira (20), em Apucarana, expôs uma ferida aberta na estrutura social da cidade e do Vale do Ivaí: o déficit habitacional crítico. Na Cidade Alta, centenas de pessoas se aglomeraram em busca de uma inscrição para apenas 50 unidades habitacionais, em uma ação organizada pela União de Mutuários e Moradores de Apucarana e Região (UMMAR). O episódio, marcado por longas filas, esperança e um princípio de confusão, reflete a pressão estatística de que, na cidade, existe uma família precisando de casa ou vivendo em aluguel excessivo para cada grupo de 18,5 habitantes.

O cadastramento, realizado em uma sala cedida pela Câmara Municipal, atraiu uma multidão muito superior à capacidade de atendimento imediato. Segundo a Assistente Social e ex-vereadora Aurita Bertoli, que está à frente da organização, a tensão culminou em um desentendimento pontual, que chegou a exigir intervenção policial.

“Não houve briga generalizada. Ocorreu uma situação isolada onde uma mulher, visivelmente embriagada, tentou furar a fila alegando parentesco com um idoso. As próprias mulheres que aguardavam há horas não permitiram. A polícia foi chamada para acalmar os ânimos, e depois disso o trabalho seguiu em paz até o final da tarde”, esclarece Aurita em áudio enviado ao Jornal Bom Dia Cidade.

A organização distribuiu senhas e garantiu o atendimento posterior para quem já estava na fila. “Quem foi ontem e pegou senha ou assinou a lista de presença será atendido hoje. Mas pedimos que novas pessoas não procurem o local, pois as inscrições encerraram às 16h de ontem devido à nossa limitação estrutural”, alertou.

Apucarana é polo de confecções que atrai mão de obra de fora, possui um déficit estimado em 7 mil unidades. O mercado imobiliário aquecido e a inflação dos aluguéis empurram a população de baixa renda para a vulnerabilidade, transformando o anúncio de qualquer programa habitacional em um evento de grandes proporções.

A procura massiva não é coincidência no Paraná. Um levantamento feito pela reportagem da 98FM, cruzando dados do Censo 2022 com estimativas de déficit habitacional revela que Apucarana e Arapongas – por exemplo, vivem um “empate técnico” na crise de moradia. Em Apucarana, com déficit estimado em 7 mil unidades, a estatística aponta a necessidade de uma nova moradia (ou regularização) para cada 18,5 habitantes.

Já em Arapongas, a situação é ligeiramente mais apertada. Com população menor (119 mil), mas com um déficit absoluto muito próximo ao da vizinha (estimado em 6.800 unidades reais), a Cidade dos Pássaros tem uma pressão de uma moradia necessária a cada 17,5 habitantes. Seguindo a comparação, Umuarama, no Noroeste, com população de 117 mil habitantes, também aparece em relatórios do Estado com um déficit estimado superior a 17 mil unidades. Já no litoral, Paranaguá enfrenta uma fila de mais de 22 mil famílias.

Diferente dos financiamentos tradicionais que exigem comprovante de renda bancária, o programa “Minha Casa Minha Vida – Entidades” possui um caráter de inclusão social rigoroso. Aurita Bertoli explica que o foco são pessoas que não conseguem acesso aos programas oficiais tradicionais: “A prioridade no edital é para mulheres mães solo, chefes de família, deficientes, idosos e cotas para comunidades tradicionais. É um programa de inclusão, ‘Minha Casa, Minha Vida, Minha Entidade’, voltado para quem realmente precisa”.

As 50 unidades oferecidas nesse cadastro é resgate de um sonho antigo. “Essas casas foram originalmente liberadas em 2016. Naquele ano, tínhamos um projeto para 330 unidades no mesmo terreno. Com a mudança de governo após o impeachment da presidente Dilma, 60 mil casas foram canceladas no país. Agora, o prefeito doou uma fração daquele terreno original para viabilizar essas primeiras 50 unidades”, detalhou a assistente social.

A UMMAR, que atua há 30 anos na cidade, opera exclusivamente com voluntários e sem repasses de verbas públicas para administração. Aurita destacou a solidariedade que emergiu em meio ao caos da fila. “Tivemos ajuda voluntária da OAB, com advogadas que levaram seus computadores pessoais para ajudar no cadastro. Uma vizinha do prédio, a Cátia, vendo a situação, desceu com seu próprio equipamento e trabalhou o dia todo conosco. É um trabalho feito com suor, sem receber um centavo do município ou da União.”

Sobre as críticas a respeito do espaço físico escolhido para as inscrições, a organização explicou que houve a tentativa de buscar locais maiores. O Executivo chegou a oferecer uma escola no distrito dos Três Reis, mas a UMMAR optou pela área central (prédio onde fica a Câmara) para facilitar o acesso da população que depende de transporte público, dada a distância e os custos de deslocamento até os bairros mais afastados.

Próximos Passos

A UMMAR segue hoje (21) com o atendimento exclusivo das pessoas remanescentes da fila de ontem (que possuem senha ou assinaram a lista). O objetivo agora é processar os mais de 1.000 cadastros realizados em apenas um dia e lutar junto ao Ministério das Cidades para que a demanda reprimida de Apucarana sensibilize as autoridades para a liberação de mais unidades habitacionais no futuro.

Serviço:

Status das Inscrições: Encerradas para novos pretendentes.

Atendimento: No mesmo local, apenas para portadores de senha/lista de presença do dia anterior.

  • Ouça o que disse Aurita Bertoli sobre o dia de cadastramento da UMMAR

 

 

Da Redação 98FM

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