O Papa Leão XIV apresentou nesta segunda-feira (25) a sua primeira encíclica — documento oficial de orientação aos sacerdotes e fiéis da Igreja Católica. Intitulado Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade, em latim), o texto aborda dois grandes temas da atualidade: a dignidade humana e os avanços da Inteligência Artificial (IA). Para tratar do assunto, o pontífice recorreu a uma fonte inusitada: uma frase do personagem Gandalf, da saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien.
A citação de Tolkien
No documento, Leão XIV apresenta o escritor britânico como referência moral para refletir sobre as responsabilidades da humanidade diante do poder tecnológico.
“John Ronald Reuel Tolkien, um escritor católico do século XX, através das palavras de um protagonista de um dos seus romances, descreveu assim a nossa responsabilidade: ‘Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar'”, cita o Papa.
Além de Tolkien — reconhecido como um dos maiores nomes da literatura fantástica mundial —, a encíclica também faz referência a Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e ao filósofo grego Platão.
O alerta sobre a Inteligência Artificial
A encíclica deixa claro que a Igreja Católica não prega o combate ao avanço tecnológico, mas defende que governos e empresas privadas adotem regulamentações adequadas para conter seus efeitos prejudiciais à sociedade.
O Papa demonstra preocupação especial com a concentração de poder tecnológico nas mãos de grandes corporações privadas, muitas vezes com alcance superior ao dos próprios Estados nacionais.
“Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”, afirma o documento.
Armas autônomas e o papel humano
Outro ponto de destaque na encíclica é o apelo contra o desenvolvimento de sistemas militares autônomos que dispensem a intervenção humana. Para Leão XIV, somente o ser humano — diferentemente de agentes artificiais — é capaz de distinguir o bem do mal.
“A Santa Sé observou recentemente que a crescente facilidade com que os sistemas de armas com autonomia operativa podem ser utilizados torna a guerra mais ‘viável’ e menos sujeita ao controle humano, contrariando o princípio de que o recurso à força armada deve ocorrer como última alternativa em caso de legítima defesa”, escreveu o pontífice.
Contexto
A Magnifica Humanitas marca o início do pontificado de Leão XIV com um posicionamento claro da Igreja diante dos desafios do século XXI. Ao unir referências da filosofia clássica, da teologia cristã e da literatura fantástica, o Papa sinaliza uma abordagem aberta ao diálogo cultural — e coloca a dignidade humana no centro do debate sobre o futuro da tecnologia.
Da Redação 98 FM News/Com informações do Metrópoles